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12/05/2013
 
Da Derrota Política no Rio de Janeiro à Vitória Eleitoral Nacional (Análise das Eleições de 2000)
 
 

Da Derrota Política no Rio de Janeiro à Vitória Eleitoral Nacional:

Quais os desafios do PT?

 

O PT obteve vitórias eleitorais em 187 cidades, entre elas 6 capitais. O Partido passa a governar 17 cidades com mais de 200 mil habitantes, o que significa, só nessas cidades, mais de 14 milhões de habitantes sob a estrela vermelha. A concentração dos melhores resultados do PT nas maiores cidades também acabou por fazer com que o resultado eleitoral do segundo turno fosse ainda mais impactante: em 29 de outubro, as vitórias do PT e da esquerda não mais se diluíram na grande massa de pequenas cidades onde a direita saiu vitoriosa. O chamado Bloco de Oposição governa hoje 12 capitais, uma a menos que o bloco governista (em Manaus, venceu o PL, que não participa de nenhum dos blocos). O PT, isoladamente, governará a metade destas capitais. Sem dúvida uma importante vitória eleitoral, conseqüência, em muitos casos, de importantes vitórias políticas.

 

Este texto visa aprofundar um pouco a análise dos resultados eleitorais obtidos pelo partido. Embora um rápido e esquemático levantamento dos principais acontecimentos eleitorais seja inevitável, o nosso objetivo aqui é, primeiro, o de relacionar esses resultados às diretrizes políticas seguidas por nosso partido (e pelos seus adversários) e com a cena política geral, definida pelos embates da luta de classes, pelos rumos da acumulação do capital e pelas diversas crises que ela engendra. E, em segundo lugar, avançar algumas polêmicas a respeito do papel e do significado que o novo quadro político, em que o PT passa a administrar parcela altamente significativa das cidades mais populosas e economicamente importantantes do país, joga no desenvolvimento futuro da luta de classes e da cena política em geral.

 

Vitórias e Derrotas: um pouco além do senso-comum

 

O desastre carioca

 

Houve inclusive cidades em que, mesmo perdendo a eleição, o PT e os trabalhadores acumularam vitórias políticas importantes. É o caso de Salvador, onde o PT se posicionou como principal partido de oposição à política truculenta, conservadora e coronelista de ACM, e desarticulou as tentativas de grupos centristas, muitas vezes próximos ao governo FHC, de hegemonizar o anti-carlismo. Por outro lado, no Rio de Janeiro, o Partido sofreu uma série de derrotas políticas, que resultaram, como é natural, numa derrota eleitoral.

 

A aliança eleitoreira com o PDT em 98 foi um equívoco atroz. A invenção de Garotinho como candidato, um erro de que o próprio Brizola precisou se penitenciar, foi comprada pelo PT, dentro de uma linha de "aliança a qualquer custo para ganhar as eleições", que não percebe as diferenças políticas entre os diversos possíveis aliados, nem os desgastes resultantes de alianças apressadas ou contraditórias. Projeto que só à força foi implantado no estado, pelo golpe de 98.

 

Pior que a aliança eleitoral foi a forma despolitizada e subalterna com que o PT governista participou do governo Garotinho. O "modo petista de governar" foi transformado em paródia para justificar a presença do partido num governo de direita. O orçamento participativo, no governo Garotinho, não passa de um "ornamento decorativo", que o governador não tem interesse em implementar. Em lugar de criar instrumentos de participação da sociedade civil em contraposição ao Estado burguês, contribui para a submissão dos explorados à ideologia burguesa. O programa cheque-cidadão, suposto similar da bolsa-escola de Brasília, entregue no Rio ao controle de pastores evangélicos, logo foi alvo de uma enxurrada de denúncias de favorecimento político. Este tipo de política compensatória - já adotado inclusive pelo Governo Federal, pois cabe dentro do Consenso de Washington - é insuficiente como instrumento de transformação social, sobretudo se, como em Brasília, é alardeado como panacéia e proposto como substituto de uma verdadeira estratégia política. Aplicado para a criação de cabos eleitorais, e subordinado à estratégia política de um governo de direita, como o de Garotinho, só pode contribuir para a marcha do capitalismo rumo à barbárie.

 

A Articulação - Unidade na Luta, na sua ânsia em se manter no governo, acabou por se constituir no "partido da boquinha". Benedita, Bittar e Palmares insistiram em não reconhecer o fato de integrarem um governo cada vez mais conservador e não hesitaram em cometer mais agressões à ética partidária e à democracia interna, para impedir que o PT rompesse com o governo Garotinho. Daí os escândalos, como as denúncias de uso da máquina do estado para vencer a disputa na prévia, através do cheque-cidadão, distribuído por igrejas evangélicas em benefício da candidatura de Benedita, ou a tentativa de compra de delegados dissidentes na convenção de 1999. Daí o crescimento artificial pela via das filiações fantasmas, levando a nova intervenção (dessa vez discreta) do Diretório Nacional, à impugnação de 1.500 fichas de filiação e à expulsão de um dos filiados envolvidos. Daí também a terceira intervenção no Rio, agora para retardar o rompimento do PT com o governo Garotinho, decidido no encontro estadual. Somente quando Garotinho já se preparava para exonerar o "partido da boquinha" é que o PT resolveu sair do secretariado, com a concordância acabrunhada de José Dirceu, que foi ao Rio colocar panos quentes na crise entre PT e PDT.

 

Daí o fato paradoxal de que, mesmo no tocante à política de alianças, o "partido da boquinha" representou o principal obstáculo para a unidade das esquerdas no Rio. Até o dia 30 de junho ainda havia a possibilidade de unidade das esquerdas. Bastaria que o PT se dispusesse ao diálogo com PDT, PSB e PCdoB, como proposto por inúmeras personalidades públicas dentro e fora do partido, de Emir Sader a Brizola. Mas o "partido da boquinha", depois de ainda rejeitar, arrogantemente, a aliança com o PSTU, preferiu a aliança com o Estado burguês, pois não consegue conceber nenhum tipo de ação política real, a não ser através do Estado e suas políticas públicas.

 

Como se não bastasse, a campanha eleitoral teve como eixo vincular a candidata ao governador, mostrando Benedita como "a candidata do Garotinho", aproveitando a disputa entre o governador e Brizola. Com isto, o que se fortaleceu no estado foi o populismo, agora em versão messiânica, mobilizando os evangélicos numa nova forma de clientelismo. A política se esvazia enquanto espaço de participação dos cidadãos e dá lugar à manipulação da fé por líderes oportunistas, contribuindo para a indiferenciação entre as propostas partidárias, que devem ser iguais, pois as diferenças são entre o "bem" e o "mal". O slogan "Bota fé no 13" é expressão desse messianismo, e exemplo de imbecilidade, pois ao mesmo tempo em que apela para a religião, alude ao - demoníaco! - jogo do bicho. Garotinho, enquanto isso, apoiava, discretamente, o prefeito atual e usava a máquina pública para eleger seus candidatos no interior (e derrotar o PT nas duas cidades que administrava).

 

Benedita não apresentou um projeto político de esquerda, limitando-se à promessa de um governo ético e honesto. Apesar da crítica pontual ao governo federal, a campanha majoritária não polarizou com a administração conservadora do município. Ao contrário, prometeu dar continuidade ao favela-bairro, principal "programa social" do governo pefelista, recusando-se a expor as contradições do governo de direita do prefeito Conde e sua ligação com FHC.

 

Como conseqüência, a campanha não empolgou. Nas ruas, não havia militantes, mas cabos eleitorais pagos: "as guerreiras da Benedita". A militância quando muito fez campanha para vereador, já que foi excluída pela própria concepção política da campanha majoritária, centrada nas personalidades e nos candidatos proporcionais, muito mais interessados no seu próprio desempenho que na eleição para prefeito. Nem o apoio entusiasmado de Chico Alencar a Benedita mudou a apatia da campanha.

 

O resultado veio na medida dos erros políticos cometidos. Benedita não passou para o segundo turno, e a prefeitura do Rio foi disputada por dois candidatos da direita. A bancada diminuiu de 6 para 5 vereadores, perda que pode se mostrar maior, pois dois dos novos vereadores são figuras obscuras na política carioca, filiados no bojo do processo viciado que escolheu a candidata do partido para a prefeitura. Os votos de legenda na capital diminuíram cerca de 40 mil comparados com 1996. A vitória em Paracambi não compensa a perda de duas das mais importantes prefeituras do estado (Angra dos Reis, administrada pelo partido desde 1988, e Barra Mansa) e muito menos o enfraquecimento visível do PT no sul fluminense - a região industrial do Rio de Janeiro.

 

A perigosa vitória paulistana

 

São Paulo, por outro lado, foi um dos elementos centrais para a tese que a direita e seus órgãos de imprensa sustentaram ao final do primeiro turno: a de que o PT que venceu nas urnas é o PT moderado, "cor de rosa" e idêntico, no fundamental, aos partidos da direita. Sem contestar o fato óbvio de que a própria Marta Suplicy pertence à ala moderada do PT, é preciso observar que, de uma maneira geral, essa distinção absolutamente não aparece para a maioria do eleitorado. No caso particular de Marta, inclusive, a tradicional firmeza e coerência com que sempre se posicionou no tocante a algumas bandeiras em particular - os direitos das minorias e a ampliação dos casos de aborto legal, por exemplo - possivelmente traçam para parcelas consideráveis do eleitorado um perfil bastante radical. A própria candidata, com muito senso político, longe de se deslumbrar com o canto de sereia da direita, passou a reafirmar sistematicamente a sua condição de petista.

 

Entretanto, São Paulo apresenta outras dificuldades que é preciso equacionar. Em primeiro lugar, o segundo turno da eleição paulistana demonstra um aspecto importante das alianças amplas, que é preciso levar em consideração. Apoiada por um leque de forças gigantesco, a campanha petista se viu embaraçada na expressão de suas posições políticas: a simples presença do governador Mário Covas no palanque petista tornou impossível o aprofundamento das críticas, não só ao governo do estado, como, o que é pior, ao governo federal. Daí o deslizamento do tom da campanha para a demonização de Maluf. Felizmente, o desgaste do malufismo - e o seu isolamento em relação às forças políticas da capital paulista - permitiram ao PT concretizar a vitória eleitoral já desenhada no primeiro turno. Entretanto, Maluf seguiu uma tática que nos deveria fazer pensar: não podendo romper o isolamento por cima, investiu contra ele por baixo, radicalizando para a direita e aproveitando as inconsistências do palanque de Marta para marcar pontos políticos.

 

Com isto, Maluf, que entrou na campanha praticamente morto do ponto-de-vista político, obteve um excelente resultado eleitoral, que lhe garante uma sobrevida política. Combinado isto com os resultados surpreendentes do PSDB (tradicionalmente muito fraco na capital, quase foi ao segundo turno) e do PFL, não é difícil verificar que as sucessivas derrotas do malufismo, devidas aos escândalos na prefeitura e câmara municipal, não renderam ao PT muito mais que uma vitória eleitoral de natureza visivelmente tática. Se é importante notar, contudo, o significativo avanço das esquerdas e do PT em particular na Câmara de Vereadores, devido, em grande parte, ao profundo desgaste das bancadas da direita, o enfrentamento das graves questões vividas pelo município e o significado político que este enfrentamento vier a obter serão decisivos para que se possa perceber quem, afinal, sai realmente vitorioso em São Paulo. Evidentemente, neste período que se inicia agora, a demonização de Maluf passa a ser totalmente insuficiente para a obtenção de vitórias políticas na capital paulista.

 

São Paulo, assim como Goiânia, tem ainda o mérito de desmentir o conhecido aforisma da direita, de que o PT "é como catapora". No interior paulista, Campinas e Diadema confirmam o fato de que o partido é capaz, sim, de superar os traumas resultantes de fracassos administrativos e políticos anteriores, inclusive derrotando os trânsfugas que posam de vítimas da "intransigência", das "divisões internas", da "vocação para a eterna oposição" do PT. Infelizmente, isto não foi possível em Santos. Talvez o sistemático alijamento da esquerda petista, assim como a intransigência, a mania de luta interna e a eterna vocação governista da Articulação não sejam estranhas a esse resultado infeliz: não apenas perdemos a eleição, perdemos para um malufista. Ainda a considerar que em algumas cidades do interior paulista (Diadema e Guarulhos, por exemplo), a disputa no segundo turno se deu contra partidos oriundos do campo popular, com a direita fora. Em Ribeirão Preto, o arco de alianças demasiado amplo e a história pregressa do prefeito balizam claramente os problemas que teremos no próximo período.

 

Curitiba: a reviravolta da reviravolta

 

Outra jóia da coroa do petismo "cor de rosa e vencedor" era a candidatura ângelo Vanhoni, em Curitiba. Um pouco de humildade, a capacidade de reconhecer os méritos dos nossos adversários, e, para variar, alguma lógica, teriam ajudado a evitar os equívocos que permitiram ao PFL lernerista reverter a derrota parcial do primeiro turno. Com todas as críticas que tenhamos a Lerner e companhia, é preciso ser marqueteiro eleitoral para não perceber que o modelo urbanístico que a camarilha lernerista - através de todos os seus avatares políticos: ARENA, PDS, PSDB, PDT, PFL - implantou em Curitiba é consideravelmente eficaz. E, portanto, obviamente, o susto do primeiro turno só podia ser resultado dos desgastes do governo do estado e - mais ainda - do apoio sistemático do lernerismo ao Governo federal.

 

Irracionalmente, o PT acreditou na idéia maluca de que o sucesso era devido à moderação da campanha, e optou por descaracterizá-la ainda mais. Posto em cheque pela quase derrota, o lernerismo reagiu radicalizando, apostando no receio da população em perder as aquisições urbanísticas da cidade. O suposto "alto nível" da campanha petista, combinado com o recuo em relação à discussão de temas nacionais, passou para o eleitorado como incapacidade ou receio de enfrentar os desafios que eram colocados pelo lernerismo. E perdemos. Entretanto, não se pode desconsiderar o fato de que é a primeira vez que o PT obtém um resultado eleitoral expressivo em Curitiba. E as vitórias de Ponta Grossa (já no primeiro turno), Maringá e, sobretudo Londrina (outro caso de volta por cima), se não compensam a derrota na capital, demonstram claramente as dificuldades eleitorais dos apoiadores do governo FHC.

 

Recife: como se enfrenta a direita

 

O argumento do "PT cor de rosa" nasce, em grande medida, da incapacidade da imprensa e da direita de distinguirem quem é radical e quem é moderado dentro do PT. Só isso explica que candidaturas como as de Meneghelli e Vicentinho tenham passado a exemplificar o conceito de "petismo radical". Tudo indica que, na opinião de parte da imprensa burguesa, radicalismo se resume à origem sindical.

 

Como explicar, então, que o candidato petista à prefeitura do Recife tenha passado por moderado em muitas avaliações pós-primeiro turno? O elemento que viabilizou essa análise foi o "zen-budismo" do candidato. Mas João Paulo é sindicalista, mulato e militante. Com todos estes atributos "radicais", fez em Recife o mesmo que Vanhoni em Curitiba: levou para o segundo turno uma eleição que o PFL tinha como favas contadas. A diferença é que a radicalização desesperada do PFL no segundo turno (o civilizado Roberto Magalhães, do civilizado PFL pernambucano, que adotou a bolsa-escola no Recife, acusou Cristovam Buarque de corrupto) esbarrou com a firmeza da campanha petista, com a aposta na militância, e, sobretudo, com a percepção clara de que é a mobilização das camadas mais exploradas da classe trabalhadora (e não da má-consciência da classe média) que pode romper a hegemonia ideológica da burguesia nas periferias urbanas. Combinada com o susto do lernerismo e com o desastre de Luiz Paulo Conde (e da ajuda que recebeu de Bornhausen), a derrota da direita pernambucana deixa Antônio Carlos Magalhães ainda mais forte num PFL mais fraco. E o PCdoB ganhou em Olinda. Bom por si mesmo, melhor ainda para mostrar que o bicho-papão do anti-comunismo não é tudo isso que andam dizendo.

 

Algumas outras cidades

 

Pedro Wilson, que o PT elegeu prefeito de Goiânia, ao contrário, é um moderado que a direita não fez questão de alardear muito. Há um bom motivo para isto: quaisquer que sejam as posições políticas de Pedro Wilson, ele simboliza a volta por cima do PT contra o novo representante de Íris Rezende e do caiadismo: o grande trânsfuga Darci Accorsi, aquele cuja administração o PT "irresponsável" inviabilizou. Em Goiânia, além da volta do PT, uma curiosidade: os panfletos demonológicos anti-petistas não funcionaram (as desculpas para a derrota de Brasília estão todas derretendo?).

 

Belém, naturalmente, não é muito útil para a argumentação da direita: o prefeito Edimílson, que se reelege, é um "radical" e nem a imprensa burguesa consegue ignorar isso. Uma derrota importante de Jáder Barbalho e da direita paraense. Fortaleza é talvez o caso mais difícil para o PT. Assim mesmo, coligado com o PCdoB (que tinha a cabeça da chapa), deu para assustar. Patrícia Gomes, a candidata da esquizofrenia cearense (metade governo/Tasso Jereissati, metade oposição/Ciro Gomes) não foi ao segundo turno, e a direita local ganhou com Juraci Magalhães. Em Manaus a disputa foi menos polarizada, entre o PL (quase governo) e o PPS (quase oposição). Ganhou o mais à direita; como em todos os lugares em que a direita ganhou no segundo turno, foi por pouco. Em Aracaju, o PT ganhou no primeiro turno; em Rio Branco, perdeu - apesar da moderação, ou por causa dela? Em Macapá, o PSB ganhou, como em Natal e Maceió. Infelizmente, o PSB nordestino parece estar se transformando rapidamente em intrumento da oligarquia. Em Belo Horizonte, também ganhou o PSB, mas aqui em aliança com o PT, e dentro do campo da esquerda.

 

Porto Alegre: aonde já é tradição

 

Porto Alegre é outra história. Outro moderado (moderadamente moderado, talvez?), Tarso Genro, teve que ir ao segundo turno para derrotar (com facilidade) talvez o último soluço do brizolismo no Rio Grande do Sul. Tarso não chamou o eleitorado porto-alegrense de analfabeto por causa deste percalço; ao contrário, teve o bom-senso de lembrar que isto tinha sido importante para evitar o "salto-alto" e combater a arrogância que poderiam prejudicar o PT. No segundo turno, quem foi prejudicado pelo efeito "frente ampla demais", foi o adversário, Alceu Collares, cujo único discurso acabou sendo o anti-petismo.

 

Porto Alegre é talvez o único lugar no país onde o eleitorado acaba realmente sabendo se o candidato do PT é moderado ou radical: a prévia do PT, sendo quase a eleição antecipada do prefeito, atrai toda a cobertura jornalística, e a população fica informada de que Pont é radical, Fortunatti é moderado, e Tarso mais ou menos. Não parece ter qualquer impacto mensurável sobre o resultado eleitoral. Em compensação, Canoas foi a terceira derrota do PT neste segundo turno. Perfeitamente normal: o partido continua crescendo numa cidade cuja direita é tradicionalmente forte. Talvez o apoio do prefeito Hugo Lagranha, do PMDB e direitista muito reacionário, tenha atrapalhado nosso candidato, que perdeu por pequena margem. Em Caxias do Sul, outro radical se reelegeu prefeito; diferença pequena, mas, afinal, é a terra de Pedro Simon e Germano Rigotto. E Pelotas disse ao nosso presidente de honra, com todas as letras, que o importante é a política, não a fofoca. Esperamos que ele tenha entendido.

 

Algumas indicações sobre o significado dos resultados

 

A direita procura nos convencer (e talvez também se convencer) de que: não houve vitória do PT; de que a vitória do PT foi a vitória do "PT responsável", que não difere politicamente da direita; de que a vitória do PT foi uma vitória administrativa, e não política; de que foi uma vitória municipal, sem rebatimento na política federal; de que essa vitória não tem importância, pois o desastre administrativo que está por vir resolverá o problema de 2002.

 

Entretanto, sem dúvida alguma, a eleição municipal mostrou um forte crescimento do Partido dos Trabalhadores, que se firma como principal partido de oposição. Já no primeiro turno, era evidente o crescimento da esquerda, particularmente nos grandes centros, e o confinamento do PSDB e seus aliados às cidades pequenas e às regiões economicamente menos dinâmicas. Como, entretanto, o número de municípios de pequena população é muito grande, o resultado real da votação (o número de votos por partido) foi obscurecido pelo resultado aparente (o número de prefeituras conquistadas), permitindo aos comentaristas de direita argumentar que a eleição "não tinha tido vencedores" ou revelava um "equilíbrio político". A isto combinaram-se alguns percalços reais (o fiasco do Rio de Janeiro, a derrota de Campo Grande, o adiamento da decisão para o segundo turno em Porto Alegre e Caxias do Sul) ou aparentes (as principais vitórias do PT, como São Paulo, Recife e Curitiba, foram vitórias parciais), permitindo que o verdadeiro calibre do desastre eleitoral do governo só se tornasse perceptível depois do segundo turno.

 

O mito do cor-de-rosa

 

Da mesma forma, os argumentos em torno de uma decantação interna do PT (os moderados ganham, os radicais perdem) não se sustenta. É verdade que a maioria dos prefeitos eleitos pelo PT pertence às correntes moderadas do partido. Mas isto, naturalmente, reflete o fato de que a maioria dos candidatos do partido pertencia a estas correntes - foi o partido que fez esta escolha, e não o eleitorado. Não há nenhum elemento que permita afirmar que o eleitorado distingue entre candidatos moderados ou radicais do PT, e muito menos que opte por qualquer um destes perfis na hora de votar.

 

Ao contrário, tudo indica que é durante a campanha que o eleitorado avalia em que medida os candidatos da oposição se mostram viáveis como proposta política. E aqui é preciso reconhecer o fato de que as campanhas que se cercaram de alianças contraditórias, que apostaram exclusivamente no aspecto ético ou administrativo, que não demarcaram com o governo federal ou que se restringiram às questões municipais, encontraram mais, e não menos, dificuldades para derrotar seus adversários. E isto independentemente de serem os candidatos radicais ou moderados, oriundos da classe média ou do proletariado.

 

A luta de classes permeia todos os espaços da sociedade burguesa. Isso não poderia ser diferente, pois é fruto das contradições do capitalismo. Mas no PT as contradições vem tomando patamares absurdos. Isso faz com que o PT seja um partido em disputa, mas hegemonizado por setores liberais, conservadores e social-democratas. Onde a tradição da formação social da cidade tem grande influência do populismo conservador e a formação de classe não é historicamente determinada pelo setor mais avançado do operariado, esss problemas internos se potencializam.

 

A direitização crescente, a adequação à ordem, a subordinação a práticas autoritárias, a assimilação de um discurso populista e social democrata e resoluções de inequívoco conteúdo liberal, enfraquecem o PT como dirigente de massas em um processo de superação da ordem.

 

A falácia da dicotomia federal x municipal

 

Diferente do que pretendem as lideranças da direita, houve um voto de descontentamento, de repúdio ao Governo de Fernando Henrique, ao neoliberalismo, às retiradas das conquistas.

 

Vivemos um momento de desregulamentação pesada e progressiva. Para o Estado Brasileiro isso vem representando uma desconstrução progressiva dos aparelhos e da estrutura do Estado. O Estado no Brasil é formado pelas estruturas municipais, estaduais e federal. Nesses vários níveis compõem-se os aparatos repressivos, ideológicos, administrativos, de inteligência, judiciais, etc. Com a tradição presidencialista e concentradora que tem o Brasil há um domínio destacado, no modelo vertical, que coloca o executivo nacional como elemento central desse estado. Assim as políticas são formuladas de cima para baixo e impostas, fazendo com que os trabalhadores sofram toda a (des)regulamentação na base. Além disso, vivemos um período de uma insana política de ajuste fiscal, onde mais cedo ou mais tarde os municípios e estados irão torcer as torneiras de suas estruturas. E tudo ocorre para garantir e viabilizar o aumento da margem de lucro dos capitalistas.

 

Para as estatais, responsáveis pelos serviços tarifários, foi imposto a privatização. Para os serviços públicos, está sendo imposto um modelo de gerência administrativa onde a lógica capitalista desconstroi progressivamente a estrutura vigente e transforma tudo em bancas de negócio fazendo com que o lucro e a produtividade se destaquem. Nós, petistas, dentro da esfera do estado (executivo e legislativo), temos a grande tarefa de remar contra essa maré axficiante que penaliza barbaramente os trabalhadores e explorados. Temos que firmar nossa prioridade nas ações sociais, criar canais abertos de diálogo com representantes dos setores organizados dos explorados, abrir as portas para o diálogo com os movimentos sociais e buscar mudar a lógica de formação das cidades.

 

Do tamanho do coqueiro ao tamanho do tombo

 

, confirmando a tese de que onde se é derrotado politicamente não pode haver vitória eleitoral.

 

O que será preciso fazer no próximo período

 

Vimos que o conceito de oposição é muito frágil para a vocação socialista que temos. Qualquer partido que se colocar contrário aos desmandos e arroubos do Governo Federal ganha o carimbo de oposição. Portanto continuaremos oposição. Entretanto, isso não basta. Temos que contribuir firmemente para ampliar a consciência e as condições de vida dos trabalhadores das cidades. E fazer isso em tempos adversos é muito mais difícil ainda.

 

É necessário então ampliar do conceito de oposição para o de socialista. A recuperação do classismo se faz tão necessário para governar em outra qualidade quanto necessário para superar os problemas eleitorais que surgiram no percurso.

 

Isso demanda uma responsabilidade imensa, que deve ser maior do que planejar a candidatura própria para presidente da república. O que está colocado é a capacidade de viabilizar um projeto hegemônico, com características gerais, que possa alinhavar todas as prefeituras e os mandatos de vereadores. Um projeto que diga mais que a necessária honestidade. O mar de lamas de roubos, usurpação de dinheiro público, desvio de verbas, etc, tem que ser superado para além da "ética com a coisa pública".galopante da adesão de massas ao PT Mas isso não tem um rebatimento direto no seu projeto estratégico. A vaga de oposição foi suprida pelo Partido dos Trabalhadores e isso traz uma grande responsabilidade.

Temos que demonstrar que a política petista, com seu ponto de apoio firme na classe trabalhadora, tem como objetivo acumular forças para uma ruptura global ao sistema capitalista iniciando um processo de transição para o socialismo. A alternativa à barbárie que se impõe ao mundo e principalmente aos países periféricos só pode ser uma alternativa socialista clara e esclarecedora, uma alternativa de massas, baseada não apenas nos votos, mas principalmente na participação ativa e decisiva dos setores organizados.

 

Não será fácil governar as diversas prefeituras e estabelecer uma política unitária que aponte o centro das dominações locais e faça a ligação com a política destruidora da globalização imposta pelo governo de FHC. Mas isso é um desafio que temos que assumir e levar em frente, superando, ao mesmo tempo os problemas internos, que infestam o partido com idéias burguesas.

 

Essa nova geografia governista das cidades traz para o Partido mais um dilema, mais um desafio. O dilema é: a) governa com poucas diferenças, implementando pequenos programas isolados que oscilam entre um progressismo ético social e políticas compensatórias ou b) firma-se como oposição, buscando construir uma política hegemônica na cidade que aposte na elevação do grau de consciência, enfrente os principais pólos do capital local e abra espaço para uma participação popular real dos setores explorados que são organizados. O desafio está colocado para o Partido.

 

A formação social do Brasil aparece nas variadas cidades de forma distintas e será necessário identificar os blocos de domínio que se fizeram hegemônico, buscando construir novos blocos de hegemonia, blocos populares, democráticos, com vocação socialistas, tornando as cidades em espaços vivos de democracia. Esse é um desafio que programas isolados de educação, saúde, transporte, etc, que são muito importantes, não resolvem. Para isso será necessário construir um projeto hegemônico, unindo setores com vocação socialista e democrático, setores que estão na luta de organizações populares e partidárias, rompendo de vez com a tradição populista e conservadora que os colonizadores e seus resquícios - representados pelo PMDB, PFL, PPB, PSDB, PTB e outros - deixaram e deixam no nosso povo. Tal projeto deve ser coerente com um projeto nacional que não permita as influências "sociais democratas globalizantes" ou "neoliberais socializantes" - tanto faz - mas aposte em uma alternativa real para um governo, uma hegemonia e um poder a ser construído pelos explorados. O PT pode fazer isso e hoje só o PT reúne condições de ser a principal liderança e expressão desse processo de acúmulo de forças dos setores explorados e marginalizados. Nossa preparação para a disputa eleitoral à presidência da republica, portanto, não está na corrida à mídia, mas na construção de um projeto com forças de se impor hegemônico e na revitalização de massas do Partido, radicalizando a oposição à FHC, retomando o fora FHC e o FMI, apresentando um programa que fira de morte o núcleo capitalista brasileiro e potencializando a democracia interna.

 

Temos que investir em políticas de emprego, em uma profunda reforma tributária que taxe as grandes riquezas e na formação de instrumentos reais de participação popular. Não podemos perder de vista que nossos governos devem melhorar as condições de vida e ampliar a consciência dos explorados, baseados em um projeto claro de superação da ordem burguesa.

 

xxxxxxxx

 

Nesse clima de luta interna exacerbada ocorreram as prévias para a escolha do candidato às eleições municipais. A vitória do "partido da boquinha" nas prévias e na Convenção Municipal ficou irremediavelmente marcada pelo uso da máquina e pelo clientelismo. Não interessava à Articulação - Unidade na Luta e à Opção Popular, cujos delegados votaram contra a discussão política na Convenção, sequer debater a campanha e o programa político do partido! Os adeptos das alianças amplas ainda , aprovando apenas a coligação com o PCdoB, numa das convenções mais despolitizadas já realizadas pelo partido no Rio.

 

Tais erros, que alagaram o PT e a sociedade carioca de sobras da direita brasileira, não podem ocorrer nos nossos governos e na atuação petista daqui para frente.

 

Os trabalhadores, no estado do Rio de Janeiro, foram perdendo referência política de classe. Para o conjunto dos explorados, não existe mais no Rio um partido da classe trabalhadora. Enquanto, no Brasil, esse partido, tanto pela referência, quanto pela inserção do partido nos movimentos sociais organizados, ainda é o PT, no Rio o distanciamento dos projetos políticos internos enfraqueceu o partido, destruiu suas instâncias e inviabilizou a construção da unidade interna, pois não há unidade na política.

 

Isso permitiu que o setor anti-socialista do PT assumisse o partido tomando como ponto de apoio o golpe imposto, de cima para baixo, pela Direção Nacional.

 

Como resultado desta e das demais intervenções, a direção do PT fluminense foi legada a um grupo sem competência política e, por conseguinte, descredenciado para unificar o partido, e a militância foi desmoralizada. Tudo isto confundiu o eleitorado e resultou no pior desempenho político eleitoral do PT fluminense nos últimos tempos.

 

 
 

 

fim