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12/05/2013
 
UMA AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ELEITORAL NO DF
 
 

UMA AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ELEITORAL NO DF

 

No meio do oceano de práticas direitistas a que fomos levados pelo governo Cristóvam Buarque, existe, democraticamente, espaço para pelo menos um desvio de esquerda. Hoje em dia, os petistas redescobrem, com súbitas erupções de jacobinismo e indignação, o caráter de classe, burguês e reacionário... das pesquisas de opinião pública.

 

O eixo da justa revolta petista contra esses instrumentos de manipulação da opinião pública é a aparente incoerência entre o índice de aprovação do governo, que é razoável e cresce, e o desempenho eleitoral projetado para a candidatura majoritária do partido.

 

Mas justamente essa incoerência é o aval da lisura das pesquisas. Se elas estivessem realmente sendo manipuladas no interesse da camarilha rorizista, porque elas poupariam as magníficas realizações da administração democrática e popular? Índices de aprovação do governo em torno de 30% seriam muito mais compatíveis com o previsto desastre eleitoral da Frente Popular, e tornariam muito mais críveis as pesquisas. É preciso ter ficado mais de dois anos no ambiente intelectualmente estimulante do governo para não perceber fato tão óbvio.

 

Das duas, portanto, uma: ou as pesquisas não estão sendo, neste preciso momento, manipuladas, ou a manipulação é outra, bem diferente daquela com que sonha a militância comissionada. Deixemos aos nossos bravos revolucionários de prioridades, que estão acostumados a esse tipo de raciocínio, a inglória tarefa de descobrir por que raios as pesquisas de opinião manipuladas com o objetivo de facilitar a rota eleitoral de Joaquim Roriz se "esquecem" de subavaliar o "melhor governo que Brasília já teve". Ao invés disso, vamos fazer o que o bom-senso recomenda: analisar a situação tal como ela se apresenta, nas pesquisas de opinião pública - e, claro, nas lutas sociais concretas que se travam hoje em Brasília.

 

Se as pesquisas de opinião apontam para um governo considerado "bom", cujo representante perde a eleição para um representante do governo anterior, a boa lógica manda supor que esse fato se deve a que o mesmo eleitorado que acha o governo Cristóvam Buarque "bom" acha o governo Joaquim Roriz ainda melhor. É preciso, portanto, descobrir duas coisas: primeiro, o que aconteceu com a capacidade crítica do eleitorado brasiliense; segundo, o que é que o governo Roriz tinha, que o nosso (bom) governo não tem.

 

O que aconteceu com a capacidade crítica do eleitorado brasiliense é muito simples: quatro anos de injeções diárias do mais eficiente anestésico social já inventado neste país. De tanto ver triunfar a mediocridade, a mesquinharia e a tacanhez, incensadas e glorificadas como visão estratégica e capacidade administrativa, tudo indica que o nosso eleitorado se convenceu, finalmente, não de que o nosso governo é um bom governo, mas de que um "bom governo" é realmente essa massamorda que temos: ou seja, o governo Roriz, sem a farra dos lotes e com trezentos programas "sociais" cujo objetivo é reciclar mão-de-obra para o capital local.

 

Ninguém consegue semelhante triunfo sem ir à raiz das questões. Até 1994, Brasília foi uma cidade onde a luta de classes se desenvolveu no sentido de um fortalecimento acelerado das categorias organizadas de trabalhadores. Embora a cidade sempre tenha sido carente de um movimento de moradia independente - pois a máquina rorizista sediada no Buriti sempre conseguiu cooptar com eficiência as lideranças de bairro - o movimento sindical brasiliense se destacava pela capacidade organizativa e pela combatividade. Naturalmente, havia uma certa artificialidade nesse sindicalismo, ditada, no fim das contas, pelo caráter artificial da própria cidade: a Capital construída do nada, patrimônio da humanidade, Babilônia moderna.

 

No outro pólo, o inimigo de classe, o tubaronato local, a burguesia contratista, parasitária, do cartel dos transportes, do cartel das empreiteiras, também se revestia da mesma artificialidade, com o agravante de seus hábitos profundamente arcaizantes, bem na linha da oligarquia fundiária goiana.

 

O governo Cristóvam Buarque foi tão fundo como se pode ir para modificar esse estado de coisas. O seu ato inaugural, emblemático, a maldição da qual não haveria nunca de se livrar, a marca da besta tatuada a fogo na sua testa, a contribuição de campanha da empreiteira mais corrupta deste país, foi a primeira senha: o inimigo não é o inimigo, o inimigo é aliado. Absolvido o tubaronato, na efígie do seu representante quimicamente mais puro, a etapa seguinte foi a ofensiva geral contra os aliados. Dia após dia, primeira página após primeira página, o Buriti foi usado como tribuna para atacar e desmoralizar o movimento sindical brasiliense. Evidente que isso se combinava com uma conjuntura política e econômica que facilitava qualquer trabalho de destruição do poder sindical. O curioso é que a imensa incompetência do governo Roriz não soube se aproveitar dessa conjuntura: era preciso um bom governo para fazê-lo. Agora nós o temos.

 

O âmago simbólico da promiscuidade entre poder público e privado na Capital, a obra do metrô, foi devidamente absolvido. Temos então de ouvir o senhor governador afirmar que a ladroagem foi tão bem feita que não deixou rastros... Mas as investigações se limitaram a uma auditoria contábil, ou seja, ao flanco mais bem defendido da fortaleza da corrupção. Uma auditoria técnica nunca foi feita, porque a sagrada aliança do governo democrático e popular com a "oposição responsável" capitaneada pelo Senador Arruda a impedia. Coerentemente, hoje já se trata de privatizar o metrô, para evitar a sangria de recursos públicos que o sua operação pelo Estado acarretará...

 

Assim, o governo dito democrático e popular embaralhou as cartas, contribuindo para uma profunda redefinição das identidades de classe no Distrito Federal. A inundação de bandeiras vermelhas que sepultou os sonhos eleitorais de Valmir Campello só foi possível porque uma parcela da população que fora "projetada" pela engenharia política rorizista como curral eleitoral se deixou neutralizar - e até, em alguns casos, arrebatar - pela combatividade, pela coerência e pela aparente unidade do PT e da Frente Popular. Por um breve momento, se vislumbrou em Brasília a existência de uma classe trabalhadora que ia dos pequenos burocratas do serviço público às massas despossuídas da periferia. Esse perigo mortal para a ordem burguesa foi pronta e decididamente combatido pelo GDF.

 

Além do ataque ao movimento sindical, a que já nos referimos, e que neutralizou a classe média e os trabalhadores organizados, esterilizando a principal força transformadora na cidade, o Governo Cristóvam Buarque cortou pela raiz as ilusões daqueles a que se tornou moda chamar "excluídos", cumprindo fielmente a promessa de campanha de estancar a imigração para Brasília. Desta maneira, tornou-se, no imaginário de gigantesca parcela da população, um "governo dos ricos". Mas "ricos" num sentido populista e impreciso, numa ótica característica dos estratos mais atrasados da população trabalhadora: "ricos" não como designação da burguesia ou do patriciado urbano, mas como apelido da classe média alta, dos "doutores" e "madames", e, no limite, até da classe média baixa e do baixo funcionalismo público que constituem uma das bases políticas do PT.

 

De fato, este processo conta com a conivência das lideranças sindicais apoltronadas, que medem o avanço do movimento sindical pelo número de assentos que ocupam nos órgãos de conciliação de classe do governo federal, e que, por se considerarem hoje sócios menores e satisfeitos da pilhagem da sociedade pelo capital, e não lideranças dos explorados e espoliados, são vítimas preferenciais da mania de expiação de culpas implícita no discurso cristoviano.

 

Assim, enquanto o descrédito e o desânimo se espalhavam entre as fileiras dos trabalhadores organizados, cujas entidades representativas eram atacadas estúpida e gratuitamente por um governo que se dizia "dos trabalhadores", o lumpemproletariat se tornava cada dia mais combativo e aguerrido - contra o inimigo errado (a classe média) e sob o comando errado (o do patriciado parasitário local, Luís Estêvão à frente). Por que aqui entra o que o Governo Roriz tinha, e que falta ao nosso: uma política de distribuição de favores às camadas mais carentes da população, coerente com o nível de desenvolvimento da consciência social desse estratos. Todos os programas do nosso governo voltados para esses setores da população se esbatem contra a firme convicção popular de que um segundo governo Roriz os manterá todos - e somará a eles uma nova farra dos lotes. Convicção que nada tem de tola, pois que todos esses programas são perfeitamente compatíveis, do ponto-de-vista ideológico, com o paternalismo rorizista.

 

Vivemos, assim, sob a égide de um espantoso quid pro quo político-ideológico, em que a própria cúpula do governo formula a ideologia populista e demagógica, contrária à organização popular, que alimenta a oposição de direita e encaminha, a passos largos, o inimigo que deveria estar derrotado à volta triunfal, à ressurreição nas urnas. Naturalmente, essa situação não é visível de dentro do Buriti. Visto do topo da torre-de-marfim, o panorama é róseo: este é um governo realizador, marcado por centenas de pequenas e médias obras e por inumeráveis programas, todos eles politicamente corretos e tecnicamente bem elaborados. Desta maneira, o auto-elogio laudatório passa por análise política, e ninguém entende como é que os institutos de pesquisa têm a cara-de-pau de mostrar uma situação tão incompatível com a inegável qualidade do nosso governo. Tão grande é a indignação com esse falseamento da realidade, tão intensa e sofrida, que lembra, e muito, o desespero.

 

No fundo, trata-se de uma velha questão: o motor da história é a luta de classes. No Distrito Federal, nos últimos quatro anos, ela tem sido vencida pelo patriciado parasitário, que reagrupa ao seu redor o conjunto da burguesia, coopta ao seu serviço as camadas mais desprotegidas da classe trabalhadora, neutraliza e isola os sindicatos, e passa, impunemente, por campeão dos pobres contra a petulância dos doutores hipocritamente racistas. Ao vencedor, naturalmente, as batatas. A direita local, hoje mais infame e brutal do que nunca, sob o comando do falsário preferido de Collor, pretende completar a sua obra em outubro, o mais tardar em novembro. E não pensa em agradecer ao Governo Democrático e Popular a inestimável colaboração prestada no sentido de mostrar ao povo qual é o seu lugar.

 
 

 

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