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12/05/2013
 
Texto para o Seminário do PT (2009)
 
 

Texto para o Seminário do PT

 

A Situação do PT-DF Hoje

 

O Partido dos Trabalhadores em Brasília enfrenta hoje uma grave crise. Depois de ter se afirmado como a principal alternativa eleitoral ao populismo rorizista em 1990 (quando Saraiva chegou em segundo lugar, desbancando o candidato “das esquerdas”, Maurício Correa, e por pouco não forçou um segundo turno), depois de ter vencido as eleições de 1994, com Cristovam Buarque, o PT sofreu uma série de três derrotas consecutivas (Cristovam em 1998, Magella em 2002, Arlete Sampaio em 2006).

 

Essas derrotas têm sido atribuídas a fatores exógenos (fraude eleitoral em 98 e 2002, fraqueza da candidata em 2006). Mas tais avaliações pecam pelo simplismo. Primeiro, porque, ainda que aceitando a hipótese de fraude eleitoral – que parece ter realmente ocorrido pelo menos em 2002 – fica inexplicada a incapacidade do partido em enfrentar e derrotar a fraude. Segundo, porque o PT sempre foi tradicionalmente maior que seus candidatos; ainda que Arlete Sampaio fosse uma candidata particularmente fraca (o que está longe de ser demonstrado), não se explica como o PT foi incapaz de superar essa suposta fragilidade individual com sua força coletiva.

 

Com relação à suposta fraude eleitoral de 98 e 2002, é preciso entender que o PT foi derrotado politicamente nessas eleições, e que as alegações de fraude eleitoral fazem parte dessa derrota política. Fraudes eleitorais podem ser revertidas, mas, a não ser em casos absolutamente escandalosos, isso requer uma condição principal – a de que um amplo movimento de massa conteste a fraude. Entretanto, nem em 98, nem em 2002, o PT foi capaz de convencer a população de que tinha sido vítima de fraude. Na verdade, nem a própria militância pareceu convicta disso.

 

Em 1998, a militância se esgotou em uma campanha raivosa de denúncia, não da suposta fraude eleitoral, mas do “erro crasso” do eleitorado em eleger um candidato “ignorante”. Em 2002, ao contrário, a fraude eleitoral foi desde logo escolhida como a principal justificativa da derrota. Mas, em vez de buscar derrotar a fraude nas ruas, através da mobilização de massa, o PT optou por uma tática meramente judicial – contestar na justiça o resultado das urnas. Isso não foi, entretanto, em momento nenhum, combinado com uma efetiva oposição do governo Roriz. Desta forma, a única justificativa para a queixa era de ordem moral – a suposta injustiça de que o PT tinha sido vítima.

 

Em nenhum momento foi colocada, de forma clara, a justificativa política: a de que a suposta fraude servia a determinados interesses, de classe, de fração de classe, de grupos políticos identificáveis. Ora, por mais que o senso de justiça da população pudesse simpatizar com a queixa de um partido derrotado nas eleições, ela só se mobilizaria para mudar esse resultado se entendesse que tal mudança teria resultados positivos. Sem apontar claramente para os ganhos que a população poderia esperar da reversão do resultado eleitoral, ou pelo menos para as perdas que teria com a continuidade do governo Roriz, tornou-se impossível mobilizar a população, e, por via de conseqüência, derrotar a fraude.

 

Com relação à suposta fraqueza de Arlete Sampaio como candidata, essa análise peca por ser incapaz de demonstrar quais as fragilidades propriamente políticas da candidatura. Parece que estamos às voltas com algum tipo de mitologia do carisma: haveria candidatos naturalmente fortes (Cristovam, Magella, ou, por outro lado, Roriz) e naturalmente fracos (Arlete, ou, por outro lado, Abadia). Tais afirmativas, além de vagamente sexistas, são absolutamente insustentáveis. Arlete Sampaio foi a deputada distrital mais votada da legenda em 2002. E começou a campanha de 2006 melhor posicionada do que Cristovam Buarque em 1994.

 

Entretanto, em 1994, a militância petista levou Cristovam dos 3% que tinha nas primeiras pesquisas à vitória eleitoral; doze anos depois, ela foi incapaz de levar Arlete ao segundo turno. Se Arlete tem alguma responsabilidade nisso, só pode ser uma responsabilidade política. Mas discutir essa responsabilidade significa discutir a responsabilidade do conjunto do partido, pois a política seguida durante a campanha eleitoral de 2006 não foi uma invenção da candidata, mas a continuidade das políticas que o PT vem defendendo desde há muito.

 

Ora, essa política implica necessariamente duas coisas interrelacionadas: uma militância desmobilizada, e a ausência de um projeto político para o Distrito Federal. É essa a situação do PT-DF no início de 2009: um partido sem projeto para a cidade onde atua, e um partido incapaz de mobilizar sua militância. Passamos a analisar cada um desses problemas.

 

            A Crise da Militância

 

A militância foi a arma principal do PT nas eleições de 1990, 94 e 98. Em 1990, ela levou nosso candidato, Carlos Saraiva, a ultrapassar o candidato “das esquerdas”, Maurício Correa, o que transformou o PT na principal alternativa eleitoral ao rorizismo em Brasília. Em 1994, ela levou Cristovam Buarque à vitória, façanha que quase conseguiu repetir em 1998.

 

Entretanto, a militância petista foi muito transformada durante o período do governo Cristovam. Como discutimos naquela época, Cristovam utilizou o governo como instrumento na disputa interna do partido, com o objetivo de transformar suas idéias mirabolantes em doutrina partidária. Para isto, atacou duramente a militância, particularmente a militância sindical, e reforçou uma camada específica de militantes – aqueles com uma tradição de classe média, uma ideologia paternalista em relação às camadas mais baixas da população, e um fetichismo pseudo-político da educação, da “ética”, ou de ambas.

 

A fragilidade ideológica do nosso partido nunca ficou tão clara quanto durante esse período – como um recém-chegado conseguiu impor a todo um partido um conjunto de idéias absolutamente grotescas, além de anti-operárias, valendo-se da nossa incapacidade coletiva de distinguir alhos de bugalhos. Ao final do governo Cristovam, a maioria da nossa militância estava repetindo acriticamente besteiras sem fundamento a respeito de educação, excluídos e incluídos, ética, etc.

 

A derrota eleitoral de 1998 radicalizou o setor cristovista da militância para a direita: foi a triste época dos adesivos abertamente anti-populares, culpando o povo e sua “ignorância” pelo desastre. Essa energia política jamais seria recuperada pelo PT. Cristovam tornou-se ministro da educação, foi incapaz de realizar seus projetos, e abandonou primeiro o governo e depois o PT, num processo de auto-dissolução política. O setor da militância que ele havia fanatizado se dispersou, em grande parte aproveitando os escândalos de 2005 para obter um álibi “de esquerda” para abandonar a luta política.

 

O restante desenvolveu um ranço anti-cristovista que não é melhor, centrado sobre a suposta “traição” de Cristovam ao PT, mas absolutamente incapaz de refletir sobre a continuidade ideológica entre o cristovismo dentro e fora do PT, e de criticar politicamente a ideologia cristovista.

 

Todo esse processo, entretanto, se desenvolve concomitantemente com a perda da influência da militância sobre os rumos do PT. A descaracterização dos núcleos, a substituição das decisões congressuais pelas “prévias” e “processos de eleição direta” tornaram a ação de militar no PT totalmente anódina e isenta de conseqüências. Por outro lado, a disponibilidade de empregos na área federal, a partir da vitória na eleição presidencial de 2002, permitiu a determinados “caciques” políticos dispor de votos de aluguel nos processos pretensamente “democráticos” que não mais exigem participação e discussão – votos nos processos internos que de forma alguma se refletem em votos nas eleições gerais, em que é preciso enfrentar os caciques da direita, muito mais hábeis na “arte” da compra de votos.

 

Junte-se a isso a grave crise “ética” do partido com os sucessivos escândalos do governo, e temos a situação de hoje: uma parte da militância fugida (alguns para o PSOL, outros para o PDT ou o PPS, muitos mais para a vida privada), a maior parte anestesiada, outra parte amordaçada, e outra ainda vendida aos caciques locais.

 

            A Falta de Projeto

 

Tudo isso se relaciona intimamente com a falta de projeto político para a cidade, o que é tanto mais grave quanto os nossos adversários políticos em Brasília, quaisquer que sejam os seus muitos defeitos, de fato têm um projeto, seja o curral eleitoral em permanente renovação através da distribuição de terra pública (Roriz), seja o consórcio empresarial comandando uma cidade escancaradamente privatizada (Arruda).

 

Essa falta de projeto contrasta também com a situação do PT a nível nacional – que tem um projeto, ainda que muito diferente daquele que se supunha quando da fundação do partido – e com a situação anterior do PT no próprio DF, pois Cristovam sempre teve um projeto para Brasília, ainda que discordemos veementemente dele.

 

Essa, a nosso ver, a diferença fundamental entre as eleições de 1994, 1998 e 2002, por um lado, e 2006, por outro. Nas três primeiras, o partido concorreu com um projeto político de longo alcance, capaz de motivar a militância e a população em geral. Esse projeto é que deu viabilidade às duas candidaturas de Cristovam, bem como à de Geraldo Magella. Em 2006, o PT tinha perdido Cristovam, e, como antes tinha aberto mão de seus próprios projetos e programas em prol do paternalismo cristovista, disputou a eleição sem projeto, sem uma visão de futuro para a cidade.

 

É essa desorientação que é preciso superar agora para que o PT volte a ter condições de disputar e vencer eleições em Brasília. Sem essa superação, o PT depende de que nossos adversários também estejam desorientados e sem projeto para ter chances reais de vitória. Ora, isso não ocorre no momento, nem há sinais claros de que venha a ocorrer no futuro próximo.

 

            Que Brasília Queremos?

 

A tarefa de construir um projeto para Brasília é em certa medida facilitada pelo fato de que a cidade tem uma vocação clara: sua economia e razão de ser estão evidentemente centradas em sua condição de capital da República. Sua vida política, social e econômica, portanto, está centrada nos serviços públicos, que constituem, por definição, o eixo estruturante de sua economia.

 

Alguns outros aspectos são também, pode-se dizer, consensuais. Dada a sua característica de cidade política e representativa por excelência, sua industrialização está limitada aos setores menos poluentes e mais intensivos em tecnologia.

 

A partir daqui surgem as divergências. A cidade se encontra estruturada em torno da “civilização do automóvel”; mais do que as cidades tradicionais, ela dificulta a circulação de pedestres. Sua geografia “espalhada” torna o transporte em velocidade essencial para a integração urbana, mas o transporte de massa é precário; o sistema de ônibus particularmente é um gargalo, caro e ineficiente, convidando ao surgimento de “transportes alternativos” como as vans e automóveis de passeio em sistema de “lotação”.

 

O espalhamento geográfico também convida à exclusão social, com as comunidades  mais carentes sendo permanentemente empurradas para longe da área central, que tende a concentrar as oportunidades de emprego e a população com maior poder aquisitivo. A população mais carente é assim duplamente penalizada, tendo de enfrentar longas viagens diárias até os locais de trabalho, bem como de pagar – e caro – por esse transporte.

 

O resultado da ineficiência dos transportes públicos é a tendência crescente ao trânsito caótico, com engarrafamentos que se multiplicam e crescem em tamanho e duração, e com dificuldades cada vez maiores para encontrar locais de estacionamento.

 

A cidade é, para os padrões brasileiros, rica, porém com uma concentração de renda muito grande e especialmente perversa, porque uma parcela significativa da população de maior poder aquisitivo não tem raízes na cidade, tendendo a viajar para fora nos fins-de-semana e férias e a desinteressar-se dos problemas urbanos, que para ela são temporários. Daí a disparidade entre a capacidade de consumo da cidade e a oferta bastante fraca de bens culturais.

 

O custo-de-vida da cidade é em conseqüência muito alto. Moradia, transporte, saúde e alimentação são particularmente caros. A falta de oportunidades culturais, por outro lado, tende a alimentar um grande mercado para diversos tipos de escapismo, entre os quais o tráfico de drogas ilegais, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, a jogatina e a prostituição e o uso irresponsável de automóveis (“rachas”, “pegas”) avultam.

 

Em conseqüência, a criminalidade é alta, abrangendo tanto o crime organizado (particularmente o tráfico de drogas e o jogo clandestino, mas também o contrabando, o tráfico de armas, e o roubo e receptação de automóveis) quanto um grau elevado de crimes eventuais especialmente entre jovens (formação e brigas de gangues, agressões organizadas contra os “diferentes”, etc).

 
 

 

fim