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12/05/2013
 
Mania de Educação
 
 

"Mania de educação"

 

Uma das obsessões periódicas da burguesia brasileira é a educação. Ao mesmo tempo em que pagam aos trabalhadores salários que inviabilizam a aquisição de livros, jornais, revistas e que confinam as crianças da classe trabalhadora ás escolas públicas, ao mesmo tempo em que pressionam contra a escola pública, em que se rejubilam com os salários de fome pagos aos professores, em que encaram cada centavo investido em educação pública como desperdício de dinheiro, ao mesmo tempo em que não se cansam de propor e incentivar a cobrança de mensalidades na escola pública, os patrões brasileiros sistematicamente reclamam da "falta de educação" do povo a quem eles roubam essa educação.

 

Enquanto na prática negam às crianças brasileiras o direito à educação, reclamam, no abstrato, que os trabalhadores não são educados. Esta dicotomia tem uma explicação muito simples: a "educação" que falta aos trabalhadores brasileiros é o treinamento para o trabalho, particularmente a reciclagem da força de trabalho em face do avanço tecnológico. Quando implementam novas tecnologias em suas empresas, os empresários precisam treinar eles mesmos a mão-de-obra, diretamente ou através de organismos que financiam; e, para eles pior, precisam pagar salários mais altos aos poucos profissionais capacitados enquanto a nova técnica não se torna de domínio geral. Eles gostariam que o Estado assumisse esta tarefa, e, dentro da confusão mental que os caracteriza, imaginam que o Estado possa fazê-lo de uma vez por todas, inoculando nos trabalhadores alguma espécie de vacina preventiva que os habilite a entender todas as tecnologias ainda por inventar. Desta forma, imaginam eles que "a educação resolve o problema do desemprego".

 

Ora, a educação que é tarefa do Estado não é a formação de mão-de-obra para o patronato, cujo perfil muda cada vez mais rapidamente, mas a formação generalista que habilita o indivíduo para uma compreensão mínima da realidade que o rodeia - o conhecimento da língua que fala e dos diversos dialetos e jargões que a compõem, das linhas gerais do desenvolvimento histórico da sociedade em que vive e do mundo que rodeia esta sociedade, das noções básicas de geografia que lhe permitam situar-se no espaço, o conhecimento geral dos avanços científicos incorporados à maioria dos processos produtivos, das principais linhas em que se situa a pesquisa científica contemporânea, uma noção clara do método científico, um conhecimento geral da organização política e jurídica em que se situa, um delineamento da tradição artística nacional e internacional e as habilidades matemáticas indispensáveis à vida numa sociedade capitalista moderna. Esta formação não resolve o problema do desemprego, e não deve ser voltada para isto. Por isto mesmo, devemos ser claros: a educação formal não erradica a pobreza.

 

Particularmente, é importante fortalecer uma escola pública de qualidade, voltada para a educação geral, formadora de consciência crítica, e não direcionada para programas de formação de mão-de-obra. Formar mão-de-obra deve ser visto como função da área de Trabalho e Emprego, e não de Educação. E se essa formação deve ser financiada pelo Estado, e de que forma, constitui toda uma outra discussão, a qual precisa estar situada dentro da percepção de que o ritmo de progresso tecnológico contemporâneo dificilmente permitiria que as estruturas estatais tivessem a agilidade necessária para acompanhá-lo, e de que o investimento em uma determinada tecnologia constitui uma ação de risco, decisão que em princípio deveria, segundo uma compreensão capitalista correta das coisas, ser ônus dos capitais individuais, e não oportunidade para desperdício de dinheiro público.

 

Também é preciso compreender que a "formação de mão-de-obra", ou "qualificação do trabalhador", ainda quando concebida corretamente, isto é, como um processo fundamentalmente econômico-tecnológico, e não pedagógico, não "resolve o problema do desemprego" nem "erradica a miséria". O seu papel é aumentar a concorrência entre os trabalhadores, e assim reduzir o salário dos trabalhadores capacitados. Evidentemente, para cada trabalhador individual, a capacitação é indispensável para continuar no mercado de trabalho; mas acreditar que resolve o problema coletivo é como acreditar que se todos os estudantes de segundo grau estudarem muito, o número de vagas na universidade aumentará.

 

A educação formal apresenta os seus próprios problemas, dos quais a sua extensão ao conjunto de todas as crianças é apenas um, sem dúvida da maior importância, mas cuja solução de forma alguma implica, quer a curto quer a longo prazo, a efetiva erradicação da ignorância - e muito menos da miséria. Na realidade local de Brasília, a questão da Educação deve ser encarada muito mais do ponto-de-vista qualitativo do que quantitativo: considerado o número relativamente pequeno de crianças e adolescentes fora da escola, o desafio principal não é o de colocá-los todos na escola, mas o de criar uma escola que efetivamente seja capaz de educar crianças oriundas de famílias de baixa renda. Nosso problema central não é que as crianças brasilienses estejam excluídas da escola, mas que freqüentam uma escola que ajuda a sociedade a exclui-las. A experiência e conhecimento acumulados pelo PT - Paulo Freire, a educação em Porto Alegre - deveriam constituir o referencial central do nosso programa.

 

A estas falácias burguesas - de que a educação formal pode ser substituída pela formação profissional, de que a formação profissional erradica a pobreza, de que a simples extensão da oportunidade de educação formal a todas as crianças equivale a efetivamente educá-las - nós petistas inventamos a nossa própria falácia, ainda mais absurda, se possível, do que essas, para terminar de nos equivocar por completo no que toca à questão educacional. Trata-se do simpático sofisma de que a educação formal equivale à educação cívica e política, e, assim, do delírio decorrente de que se colocarmos todas as crianças na escola hoje, fatalmente ganharemos todas as eleições (e quem sabe até faremos a revolução!?!?...) daqui a vinte ou trinta anos. Naturalmente, semelhante absurdo tem como conseqüência lógica um absurdo ainda maior, embora aparentemente muito tranqüilizador para uma parcela importante de petistas: a de que a derrota eleitoral de 98 não foi devida aos nossos erros, mas à ainda não erradicada ignorância do eleitorado.

 

Um pouco de conexão com a realidade nos mostraria rapidamente como países em que a educação formal se encontra mais difundida do que no Brasil - e que nos são constantemente propostos como modelo - elegem regularmente governantes de direita, até mesmo de direita radical. Certamente, de acordo com esta nossa lógica tacanha, George Bush não foi eleito presidente dos Estados Unidos, e nem mesmo Al Gore: os dois candidatos mais votados foram Mc Reynolds e Nader. E a Áustria não tem um primeiro-ministro de extrema-direita, assim como a Alemanha nunca teve um ditador chamado Adolf Hitler.

 

A elevação da consciência política da população evidentemente não passa pela educação formal. É unicamente através da experiência política que ela pode ser obtida; naturalmente, quando essa experiência política mostra uma esquerda incompetente, que repete os chavões da direita, que não organiza a população, que remete a solução de todos os problemas a operações mágicas e concessões da elite, não há por que nem como o eleitorado aprender as diferenças essenciais entre as diversas posições políticas, nem perceber quais as que mais se aproximam da defesa dos seus interesses; neste caso, os processos eleitorais degeneram em disputas pessoais despolitizadas, os argumentos da direita não podem ser racionalmente desmontados, e a maior disponibilidade financeira e o melhor entrosamento político dos nossos inimigos tendem a lhes dar a vitória.

 

Finalmente, a "mania de educação" tem uma outra articulação ideológica muito perigosa: a noção de que aqueles que tiveram acesso à educação formal são de alguma forma melhores do que os que mal-e-mal foram alfabetizados, ou nem isso. Quando disputávamos a presidência da República com um candidato operário, contra um Doutor da Sorbonne, este discurso era um autêntico suicídio eleitoral, que ou condenava Lula como incompetente para o exercício do poder, ou ajudava a transformar Roriz no candidato dos pobres. Mas este é o mal menor. Infelizmente, todo este exercício de auto-incensamento de classe média e de preconceito anti-popular nos conduziu a muito mais do que uma derrota eleitoral: marca o nosso isolamento político em relação ao principal contigente da classe trabalhadora de Brasília e ameaça nos inviabilizar como partido dos explorados, em prol de uma conquista muito duvidosa da classe média.

 
 

 

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