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27/01/2011
 
Balanço das Eleições 2010
 
 

A vitória eleitoral de 2010 nos convida a algumas discussões. Seria necessário tentar entender a sensação de pânico que se apoderou da militância quando não conseguimos vencer no primeiro turno. Esse pânico nos colocou em algumas situações embaraçosas, das quais a pior foi um movimento em direção à direita, com concessões descabidas ao anti-abortismo oportunisticamente agitado por Serra. Por outro lado, é necessário também dimensionar corretamente os impactos sobre a nossa campanha – e os nossos votos – das diversas movimentações da campanha de Serra (Erenice, aborto, bolinha de papel, etc.)

A campanha eleitoral de 2010 marca também algumas mudanças importantes nos atores políticos relevantes no Brasil. A já tradicional polarização entre PSDB e PT se manteve no fundamental, apesar da votação expressiva alcançada por Marina Silva. Mas, além de uma análise mais detida do que significa, ou pode significar, a votação de Marina, é preciso constatar que o PSDB, principalmente, mudou consideravelmente de 2006 para cá (ou expressou de forma mais clara nesta eleição uma mudança que já vinha se operando há mais tempo). Outras mudanças são mais sutis, e dizem respeito a atores não partidários, particularmente a imprensa e a(s) igreja(s).

É preciso também debater o significado político do voto popular em 2010; principalmente para disputar esse significado junto à sociedade. Nesse aspecto, é preciso reconhecer que a direita saiu na frente, procurando caracterizar o voto em Dilma como uma continuidade do voto alienado e comprado característico do “coronelismo” dos grotões, do Brasil rural em geral e do Nordeste em especial. E é preciso entender como essa análise caminha para uma radicalização fora do controle da direita política, a qual pode, claramente, aprofundar a derrota tucana e demista.

1. Do “salto alto” ao susto

A “reta final” para o primeiro turno de 2010 foi caracterizada por um crescimento muito rápido da nossa candidatura nas pesquisas de opinião, seguida pelo início de uma queda, a qual se “concretizaria” então numa votação de 47% para Dilma Roussef, cerca de sete pontos percentuais abaixo do pico atingido poucos dias antes. O crescimento criou a ilusão de uma vitória no primeiro turno, a qual não se concretizou, levando a algumas reações de pânico. Isto constituiu uma vitória importante para a direita, nem tanto por ter levado a eleição para o segundo turno, mas sobretudo porque inverteu a lógica do desespero. Até ali, era a candidatura de Serra quem tinha motivos para pânico e derrotismo; o resultado inesperado fez com que parte de nós pelo menos se sentisse derrotada e mesmo desestimulada, enquanto reacendia as esperanças tucanas.

Não há como saber se houve uma inflação deliberada dos números de Dilma, os quais, confrontados depois com uma votação mais modesta, resultaram numa perturbação descabida da militância. Mas se não foi deliberado, funcionou de qualquer forma muito bem: o fato é que, real ou imaginária, a “queda” de Dilma, das projeções de 54% para a realidade de 47% coincidiu com uma última, e mais desesperada, ofensiva tucana.

Após as numerosas tentativas de enredar nossa candidatura em algum escândalo – dos quais a mais persistente e absurda se relacionava com a quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra, e a mais pertinente com a atuação de Erenice Guerra na Casa Civil – a campanha tucana se concentrou num aspecto específico, a posição de Dilma em relação à descriminalização do aborto, a qual foi exposta como contraditória. Ora, a interpretação mais óbvia – e que, portanto, foi mais diretamente sugerida pela imprensa – para a suposta queda de sete pontos percentuais de Dilma era a de que sua posição feria os sentimentos antiaborto da população brasileira.

Essa armadilha levou a muitos de nós a adotar práticas absolutamente condenáveis, como a de divulgar uma portaria de Serra, quando ministro, regulamentando o aborto nos casos previstos em lei, ou uma homilia de um padre reacionário denunciando Serra por “distribuir camisinhas no Carnaval”, desta forma endossando posições que não guardam nenhuma relação com nosso partido e nossa história. De forma mais séria, mas nem por isso menos equivocada, levou nossa candidata a assinar um documento fazendo concessões a esses posicionamentos reacionários. Duas coisas desmontaram a armadilha – a casualidade de que uma ex-aluna da esposa de Serra lembrou publicamente que essa senhora teria feito um aborto, e a atitude firme da nossa candidata no debate televisivo, em que deslocou definitivamente a pauta em direção a temas mais relevantes, como as privatizações.

Um primeiro elemento que nos mostra o quanto o pânico nas nossas fileiras foi precipitado, é a comparação da votação de Dilma no primeiro turno de 2010 com a votação de Lula nos primeiros turnos de 2002 e 2006. Ela é basicamente a mesma, ligeiramente maior que os 46% de Lula em 2002 e ligeiramente menor que os 48% de 2006. Deveríamos desconfiar de oscilações semanais de intenção de voto num eleitorado que se mostra tão estável num período de oito anos.

A evolução dos fatos, do primeiro para o segundo turno, demonstra que a polêmica sobre o aborto não tem a relevância desejada pela tucanagem. É verdade que Dilma teve uma votação menor (56%) do que a de Lula (60%); mas nada indica que qualquer questão isolada, seja a polêmica sobre o aborto, seja o caso Erenice, foi capaz de deslocar mais do que 4 pontos percentuais do eleitorado para a direita. É verdade que se pode lembrar que a conjuntura de 2010 é mais favorável do que a de 2006; mas também é verdade que nossa candidata não era o Lula, mas uma pessoa que nunca antes tinha enfrentado uma eleição. A transferência se fez de forma considerável e maciça, sem deixar margem a tergiversações.

Em todo caso, a movimentação que deveríamos fazer não é no sentido de concessões ao moralismo “pró-vida” católico-evangélico. Ao contrário – e principalmente agora, que já vimos que se trata de um tigre de papel – seria necessário enfrentar a questão de forma mais corajosa e honesta, particularmente desmascarando a hipocrisia daqueles que bradam “em defesa da vida” dos fetos, mas não se incomodam nem um pouco com a morte das mulheres que praticam aborto em condições degradantes e não podem recorrer ao sistema de saúde pública por receio de serem denunciadas como criminosas.

2. O fator Marina

Uma diferença importante em relação às eleições de 2006 e 2010 foi a presença de uma candidatura forte construída sobre um discurso explicitamente centrista. Em 2006, a terceira colocação no primeiro turno foi de Heloísa Helena, do PSOL, que teve apenas 6,85% dos votos; Cristóvam Buarque ficou em quarto, com minguados 2,64%. Nenhum dos dois, além disso, buscou ocupar um espaço intermediário entre o PT e o PSDB; ao contrário, ambos procuraram ocupar um nicho à esquerda de Lula, ainda que o seu conceito de “esquerda” tivesse mais a ver com moralismo do que com posições políticas identificadas com a defesa da classe trabalhadora. Em 2002, o terceiro e o quarto lugares, Anthony Garotinho e Ciro Gomes, obtiveram resultados bem mais expressivos (17,86% e 11,97% respectivamente), e de certa forma buscaram o centro do espectro político, embora de forma um tanto confusa e misturada com apelos tanto à direita quanto à esquerda; mas ambos apoiaram clara e abertamente Lula no segundo turno.

A candidatura de Marina Silva, ao contrário, buscou sistematicamente inserir-se entre os dois candidatos principais. Seu discurso passava pelo reconhecimento de qualidades tanto no governo FHC quanto no governo Lula, assim como pela crítica ao que chamou de “vale-tudo eleitoral”, endereçada tanto a Serra quanto a Dilma. O eixo da sua campanha remetia a “romper o plebiscito”. A sua votação, especialmente se considerarmos a completa desproporção em relação ao peso político do seu partido, revela a existência de uma fatia do eleitorado que rejeita, ou quer rejeitar, a polarização representada pelo PT e pelo PSDB. O fato de que uma candidatura buscando esse espaço foi possível em 2010, mas não em 2006 ou 2002, nos leva a algumas reflexões.

Em 2002, a crise que acometeu o final do governo Fernando Henrique fez com que proliferassem candidaturas “de esquerda”; mesmo a candidatura do PSDB hesitava em se assumir como herdeira do governo cessante. Nestas condições, uma candidatura que buscasse algum tipo de “imparcialidade” entre os dois candidatos principais seria provavelmente triturada nas urnas. A isso se soma o fato de que a experiência prévia do eleitorado brasileiro, depois da ditadura militar, se resumia ao truncado governo Collor (que já não tinha então defensores no cenário político) e aos oito longos anos de FHC. Assim, não era possível um plebiscito entre dois governos: o único plebiscito possível era sobre o governo Fernando Henrique. Os “terceiros” candidatos, Garotinho e Ciro Gomes, consequentemente, colocaram-se no espectro da oposição, chamando o voto contra o governo. Não haveria portanto como encaixar um discurso como o de Marina em 2002.

Em 2006, os problemas enfrentados pelo governo Lula, ao contrário de suscitar uma vontade generalizada de retomada do tucanato, apontaram numa outra direção: a oportunidade de ultrapassar o governo pela esquerda, com um discurso de aparência mais radical. Tal foi a tática da candidatura Heloísa Helena, e de forma mais ambígua, da candidatura Cristovam Buarque. A reduzida votação de ambos demonstrou que esse espaço era exíguo (o que se confirma de forma mais clara com a pífia votação de Plínio Sampaio em 2010).

A candidatura de Marina, desta forma, pode representar um movimento real. Neste sentido, sua principal dificuldade é a estreiteza do seu partido político. A ecologia política não é um movimento efetivamente capaz de ocupar o centro político, a não ser negando-se enquanto tal. Não é preciso insistir em que o voto em Marina não representa, de forma nenhuma, uma crescente preocupação ambiental, nem qualquer crescimento do Partido Verde para além dos seus limites muito estreitos. No que tem de representativo, ou mesmo saudável, foi uma candidatura de centro, disposta a firmar-se como uma terceira via entre a esquerda petista e a direita tucana.

Sua expressiva votação se divide entre essa posição política e alguns outros fenômenos menos legítimos. Um deles foi a extrema dificuldade de alguns setores da população em expressar apoio a um governo que atingiu alguns de seus direitos; particularmente servidores públicos e aposentados se encontravam nessa situação. Trata-se de ressentimentos legítimos, mas que se expressam politicamente de forma equivocada. Afinal, as eleições dizem respeito a projetos políticos, não a reivindicações setorizadas, ainda que justas. Outro fenômeno importante foi o aparente deslocamento de uma parcela de votos da direita em direção a Marina, por motivos puramente eleitorais (corretamente, percebia-se que os votos de Marina se dividiriam entre Serra e Dilma, mas que os votos tucanos desaguariam en masse em Marina, que desta forma teria mais chances de derrotar o PT).

O capital político de Marina, desta forma, divide-se em pelo menos quatro partes, não demasiado compatíveis umas com as outras:

      1. O voto Verde propriamente dito, cujo tamanho se resume aos votos do Partido Verde (e talvez seja ainda menor, em torno de 1 ou 2% do eleitorado, os quais provavelmente se transferiram para Dilma no segundo turno): eleitores legitimamente preocupados com a questão ambiental, tradicionalmente próximos à esquerda, mas talvez temerosos das conseqüências ambientais do desenvolvimentismo do governo Lula;

      2. Um voto de centro, consideravelmente maior, e efetivamente capaz de dar sustentação a uma continuidade política ao projeto, não necessariamente hostil ao PT, ou ao PSDB, mas insatisfeito com a polarização da vida política entre esses partidos (talvez 7 ou 8% do eleitorado, que provavelmente se dividiram no segundo turno);

      3. Um voto de protesto, hostil tanto ao PSDB quanto ao PT, que em 2006 foi para o PSOL, mas que se deixou seduzir pela maior viabilidade da candidatura Marina (talvez 5 ou 6% do eleitorado, que se expressa principalmente nos 4,5 milhões de abstenções a mais no segundo turno); e

      4. Um voto útil da direita, hostil ao PT, mas justificadamente descrente da viabilidade eleitoral de José Serra (talvez 4 ou 5% do eleitorado, constituindo parte considerável dos 10,5 milhões de votos que Serra conseguiu a mais no segundo turno).

As duas últimas categorias são volúveis, naturalmente, e só assumiram a candidatura de Marina circunstancialmente (a terceira, evidentemente, nos interessa e pode voltar ao nosso eleitorado se forem corrigidos alguns dos equívocos do nosso governo; a quarta tende a voltar ao seu nicho natural, votando no PSDB, no DEM, ou em alguma outra alternativa de direita). A primeira é uma aliada natural do PT, do qual provavelmente se distanciou em função da pujança da candidatura Marina, mas dificilmente se constituiria numa alternativa política por si só. A segunda categoria, entretanto, demanda uma discussão mais aprofundada e, ao final, uma decisão estratégica. Queremos uma força política de centro entre nós e o PSDB, para acolchoar os nossos embates com a direita? Há motivos para temer que essa força política possa vir a converter-se num fiel da balança, podendo pender para um lado ou outro ao sabor das circunstâncias, ou, até mesmo, tornar-se hegemônica ao desempenhar o papel de “mal menor” para ambos os lados?

3. O triste destino do PSDB

Por outro lado, se de fato a candidatura Marina pode constituir um embrião de um novo centro, isso se deve ao definitivo deslocamento do PSDB para a direita. É verdade que já há muito que os tucanos têm uma prática e um programa de direita; mas a extrema-direita brasileira propriamente dita (TFP, UDR, integralistas, saudosistas da ditadura militar, etc.) nunca se se deixou seduzir por isso. Nesse sentido, a eleição de 2010 marca uma ruptura: pela primeira vez, a extrema-direita apoiou aberta e entusiasticamente a candidatura tucana. Trata-se de um destino lamentável para um partido que foi fundado como uma dissidência pela esquerda do PMDB (e pode-se lastimar também que José Serra, que foi presidente da UNE, que foi assessor do governo Allende, que foi perseguido e exilado pelo regime militar, encerre a sua carreira cumprindo o triste papel de candidato das viúvas da ditadura). Mas trata-se de um caminho escolhido por eles mesmos.

Neste sentido, é notável como a campanha de Serra imitou diversos aspectos das campanhas eleitorais da direita norte-americana. Eles vão da pura e simples cópia caricata (a “denúncia” de que Dilma teria nascido na Bulgária, similar ao boato de que Obama teria nascido no Quênia) à tentativa mais consistente de mudar o eixo da discussão para questões “morais”, como a descriminalização do aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas aqui é preciso introduzir uma distinção importante: para a direita americana, essas questões são estruturantes, isto é, são importantes para uma larga fatia do eleitorado que costuma ser fiel à direita. Para a campanha de Serra, ela parece outra vez caricatural: a tentativa de atrair para seu lado um contingente eleitoral claramente aderente à candidatura Dilma.

Ou, dito em outras palavras, a exploração destas questões pela direita americana corresponde um fator eleitoral real. A tentativa de exploração delas por Serra corresponde apenas ao que os tucanos imaginam que seriam os eleitores do Norte/Nordeste, os eleitores mais pobres, com menor educação formal. Como para os tucanos, esses eleitores não passam de capiaus incapazes de discernir seus próprios interesses, seria possível enganá-los, colando na testa da nossa candidata uma etiqueta de “modernidade” incompatível com a Idade Média em que eles imaginam que o interior do Nordeste vive. A campanha de Serra pediu votos para um eleitorado que deixou de existir vinte ou trinta anos atrás.

Mas o problema, do ponto de vista tucano, é que essa tática estapafúrdia representa uma confissão mal dissimulada de que os interesses materiais desses eleitores estão melhor servidos pelo PT. A total hipocrisia tucana só poderia funcionar com a condição de que os eleitores que eles gostariam de tirar de Dilma acreditassem neles, ao mesmo tempo em que a sua própria base social entendesse claramente tratar-se de manobra eleitoreira a não ser levada a sério. Daí a aparência esquizofrênica da campanha, em que o candidato prometia ampliar o bolsa-família, enquanto suas bases repetiam à exaustão que esse programa desestimulava as pessoas a trabalhar, até mesmo gerando uma suposta “escassez de mão-de-obra”. Ou em que o candidato falava em aumentar o salário mínimo, enquanto sua base social justamente se queixava da inviabilidade de contratar empregadas domésticas dados os constantes aumentos do salário mínimo. Essa hipocrisia/esquizofrenia atingiu o ápice quando veio à tona o suposto aborto praticado pela esposa do candidato.

A verdade é que, para a classe média brasileira, não há nada de extraordinário no aborto, o qual é uma prática bastante disseminada. É proibido, mas não é difícil de fazer, se necessário. Da mesma forma como a classe média brasileira claramente não se assusta com políticos de comportamento secular – como José Serra sempre foi, e muito certamente continua a ser entre quatro paredes. A palhaçada do aborto, como a pantomima da beijação de terços e da carregação de santos, só se explica pela absoluta confiança no caráter de classe do voto da base tucana – que, de outro modo, abandonaria o seu candidato “moderno” ao vê-lo emular o padim pade Ciço.

4. A extrema-direita rompe seu isolamento?

Seria cômico se não fosse trágico, e o aspecto trágico reside no fato de que a campanha tucana pode marcar o fim do isolamento da extrema-direita brasileira. Essa direita, profundamente dividida pela dificuldade de expressar um posicionamento ao mesmo tempo anti-operário, anti-moderno, e anti-nacional, está sem dúvida atenta ao que faz a sua congênere americana, de quem já mostrou ser capaz de copiar os trejeitos. Resta saber se será capaz de copiar o método.

A extrema-direita norte-americana foi capaz de manipular um dos dois principais partidos dos Estados Unidos, o Republicano, embora não tenha peso numérico para efetivamente controlá-lo. A mágica consistente na chantagem permanente: não se trata de ter a maioria dos votos, mas de ter o número de votos que fará a diferença entre a vitória de um ou outro candidato, e de deixar claro que ou os temas e questões caros à extrema-direita são priorizados na campanha, ou os votos não serão dados. O objetivo não é, claro, vencer eleições – este é um problema do Partido Republicano – mas deslocar todo o debate político para a direita, colocando os Democratas – e a esquerda, e o centro, e mesmo a direita moderada ou secular – permanentemente na defensiva.

E a nossa questão é se essa estratégia pode vir a ser adotada no Brasil, sequestrando o PSDB e subordinando-o ao programa de uma guerra cultural à brasileira. Há muitas dificuldades para isso, mas há também uma vantagem tática considerável.

A vantagem tática é a consistência do desmonte da Igreja progressista pelo longo pontificado de João Paulo II, somada à sua continuidade sob Bento XVI. A rede de Comunidades Eclesiais de Base praticamente se dissolveu; os bispos progressistas foram removidos ou transferidos para dioceses em que não estavam enraizados. Os bispos reacionários, ao contrário, foram valorizados e colocados em posições estratégicas. Essa mudança dá à direita ultramontana, que é uma vertente importante na extrema-direita brasileira, uma infra-estrutura poderosa e uma tribuna semanal importante – a missa dominical.

As dificuldades são, felizmente, muito maiores. A principal delas, de ordem estratégica e praticamente irremovível, tem a ver com a incapacidade da burguesia brasileira em dotar-se de uma ideologia nacionalista. O chauvinismo da direita norte-americana é muito real; a extrema-direita brasileira ou é abertamente entreguista (caso dos anticomunistas fanáticos, que vêm comunismo em qualquer ruptura de um alinhamento automático com os Estados Unidos) ou ignora a questão, como a direita religiosa ou agrária. As tentativas nacionalistas existem, sem dúvida (os numerosos saudosistas da ditadura militar, os remanescentes do movimento de Enéas Carneiro, e até mesmo os integralistas), mas ou perdem respaldo na sua base ao atravessar o samba do preconceito anti-popular, ou têm de se contentar com um nacionalismo aleijado, que exclui a ampla maioria da nação.

Outra dificuldade importante é a persistência, apesar dos pesares, de um clero progressista. Se o papado busca permanentemente destruir a Igreja progressista, as condições materiais de vida da maioria dos fiéis brasileiros tendem constantemente a reconstruí-la. Se a campanha de Serra sonhava com um clero nordestino chamando unanimemente os fiéis a votar contra a aborteira Dilma na missa da manhã de 31 de outubro, deve ter ficado decepcionada. Até porque a perceptível melhoria das condições de vida no Nordeste brasileiro sob o governo Lula também atinge os sacerdotes católicos – cujas antigas ligações orgânicas com a oligarquia rural também já se romperam há muito.

Mas, como já foi dito acima, se é duvidoso que a extrema-direita tenha de fato conseguido romper seu isolamento, é um fato que deixou de se conformar com ele. Pela primeira vez em muito tempo, volta a fazer política ativamente, afina um discurso público, e talvez venha até mesmo ganhando adeptos, como veremos adiante. A dúvida agora é qual o comportamento dos tucanos em relação a ela: continuarão a ser cúmplices da sua ressurreição, ou, passado o desespero eleitoral, tratarão de se afastar dela?

5. A imprensa e sua parcialidade

Outro ator importante cuja evolução no contexto das últimas eleições é necessário acompanhar é a grande imprensa. Que esta, até por sua natureza empresarial, tenderia a apoiar Serra, não há dúvida. Mas esse apoio mudou de forma nestas eleições. A maioria da imprensa apóia a direita sob um manto de “imparcialidade” (uma exceção importante é o Estadão, que assume em editorial sua posição), e manifesta seu posicionamento de forma oblíqua, enviesando o noticiário, em vez de emitindo opinião. Entretanto, o apoio se tornou agora muito mais óbvio, e também muito mais passional.

Há alguns motivos circunstanciais, de lógica eleitoral, para isso. Por muito tempo, a imprensa apostou na inexistência de uma candidatura petista viável para 2010 (e tratou de dificultar essa viabilidade insistindo no mito do “terceiro mandato”, que lhes permitia sublinhar essa inexistência ao mesmo tempo em que mantinha uma ofensiva permanente contra o suposto “golpismo” ou “chavismo” de Lula). A escolha de Dilma Roussef, portanto, pareceu lhes dar razão. Não só não podíamos, constitucionalmente, ter Lula como candidato, como também não teríamos uma liderança expressiva e testada nas urnas. Por este motivo, a imprensa tranquilizou-se durante esse período, imaginando que nossa tática era semelhante a certas práticas conhecidas do lado de lá: Lula estaria preparando uma derrota em 2010 para ressurgir das cinzas em 2014.

Quando a candidatura Dilma se firmou, entretanto, a imprensa se descobriu desamparada: agora a suposta “inviabilidade” da nossa candidata passava a jogar contra eles, que estavam no rumo de serem derrotados por uma candidata “sem densidade eleitoral”, e de ver desmentida a tese de que a liderança de Lula é meramente pessoal, e portanto intransferível. Daí a ferocidade do combate: tratava-se de impedir uma derrota completa, humilhante, e a continuidade de um projeto que eles agora descobriam ter fôlego para derrotá-los não só agora, mas ainda muitas vezes no futuro. Os dois mandatos de Lula, via-se agora, não estavam destinados a serem uma mera anomalia no mar tranquilo da dominação de classe no Brasil.

Há também o tratamento privilegiado que foi dado à grande imprensa pelos tucanos em seus governos (caso famoso é o das assinaturas da revista Veja para as escolas da rede pública de São Paulo), e a percepção de que esse tratamento seria prejudicado pelo crescimento eleitoral do PT. Isto, entretanto, se articula com um outro problema, muito mais grave e estrutural, da grande imprensa. É a questão da internet, e do crescente desgaste da imprensa de papel diante de uma tecnologia de informação mais moderna, mais ágil e mais plural: as vendas caem, a publicidade cai, e as compras governamentais aumentam de importância para a grande imprensa. Daí uma parte considerável dessa imprensa radicalizar o discurso contra um governo sem dúvida muito menos sensível a esse problemas do que os de seus parceiros tucanos.

6. mito do voto nordestino e dependente

Passadas as eleições, a direita continua o seu combate. Se não pôde nos vencer no voto, tenta pelo menos emplacar a sua própria interpretação do resultado eleitoral. De maneira bastante irresponsável, procura incorporar ao senso comum a ideia de uma divisão do país entre os estados do Sul/Sudeste (desenvolvidos, modernos, bem-sucedidos, etc.) e os do Norte/Nordeste (atrasados, pobres, etc.). Trata-se, é claro, de uma completa falácia.

Em primeiro lugar, se a intenção é desqualificar a vitória eleitoral da nossa candidata, é preciso lembrar que ela foi eleita com 56% dos votos. Se essa margem de votos não é significativa, então deveríamos questionar também o fato de que, nos estados em que venceu, Serra obteve uma vitória significativamente menor. Serra superou os 56% apenas em Santa Catarina, Acre e Roraima – e Acre e Roraima certamente não se qualificam como estados sulistas, ricos, ou desenvolvidos. Além disso, os resultados de pelo menos três estados – Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Goiás – foram na verdade empates políticos; Serra teve mais votos neles, mas não superou sequer os 51%.

Depois, naturalmente, se é válido considerar os resultados eleitorais por estado (como se estivéssemos nos Estados Unidos), também deveríamos então considerar os resultados eleitorais por município, em cada estado. Vejamos, por exemplo, São Paulo. É verdade que Serra ganhou na capital, assim como em Campinas (ainda que por uma margem menor do que no interior). Mas se olharmos para a região metropolitana, veremos que Dilma ganhou na maioria das cidades; no somatório, Serra obteve apenas nove mil votos a mais, e portanto perdeu no que se chama “entorno da capital”. Além, disso, tanto a população quanto o PIB e o PIB per capita das cidades do “entorno da capital” paulista em que Dilma ganhou são maiores. Da mesma forma no próprio Nordeste. Na Bahia, Dilma venceu com 70,85% dos votos – mas, em Salvador, foram 73,34%. No Maranhão, Dilma teve 79,09% dos votos, e é verdade que em São Luís foram “apenas” 76,70%. Mas basta olhar as cidades próximas à capital para ver o que ocorre: Paço do Lumiar, 84,13%; Alcântara, 90,15%; Icatu, 93,89%). Entre os municípios limítrofes de São Luís, Dilma não fez menos de 80% em nenhum. Mesmo em Santa Catarina, o único estado populoso e “desenvolvido” em que Serra ganhou por margem maior que a de Dilma a nível nacional, vencemos em numerosos municípios (inclusive praticamente todo o Oeste catarinense, onde Serra só venceu em municípios muito pequenos).

Na região Sudeste, Serra perdeu, e longe, tanto em Minas Gerais quanto no Rio de Janeiro. Na região Sul, venceu por margem mínima no Rio Grande do Sul, onde também perdeu em muitos municípios, notadamente no centro e no noroeste do estado. De forma que, ao fim e ao cabo, o argumento de que “Dilma ganhou por causa do Nordeste” se resume, basicamente ao seguinte: se não fossem os estados e municípios em que Dilma venceu, José Serra teria ganho.

Por outro lado, já apontamos a ilusão tucana em relação ao Nordeste, visto em bloco como a região “do atraso”. Esta ilusão se entronca, naturalmente, com a ideia de que a votação de Dilma no Nordeste se deve ao apoio das oligarquias nordestinas. É claro que existem setores dessas oligarquias que de fato apoiaram eleitoralmente o governo e sua candidata; eles são parte importante do PMDB nordestino. Basta lembrar o apoio dos Sarney. Mas também é fácil ver que a oligarquia nordestina vem perdendo poder aceleradamente – e é para agarrar-se ao que pode que se integra à base do governo. Os setores mais fortes, que ainda são realmente capazes de ganhar eleições, são aqueles que compõem o DEM e apoiam a oposição tucana. O único estado do Nordeste em que o PMDB ganhou é o Maranhão, e mesmo ali o PCdoB quase conseguiu levar a eleição para o segundo turno. Convém lembrar também que onde o PMDB rompeu com o PT (Bahia e Paraíba), foi derrotado. Os setores pró-tucanos do coronelismo, ao contrário, venceram em dois estados, Rio Grande do Norte, com o DEM, e Alagoas, com o PSDB, e perderam por pouco em Sergipe, não por acaso os três estados nordestinos em que a votação de Dilma foi menor.

É claro que esses setores mais desgastados da oligarquia nordestina contribuíram para a vitória eleitoral de Dilma, mas não é mais verdade que eles controlem eleitoralmente os seus estados (se o fizessem, provavelmente apoiariam Serra, que é quem menos os ameaça). E esse é o equívoco central da análise apressada feita pelos tucanos e setores da imprensa, que os levou a imaginar que poderiam “virar” a eleição apelando para a religiosidade popular.

Desfeita a confusão entre o voto que elegeu Dilma em 2010 e o voto de cabresto que o tucanato imagina ainda ser hegemônico no Nordeste, é preciso ainda discutir os demônios que os aprendizes de feiticeiro tucanos desencadearam com seus preconceitos de classe e região e suas manipulações inábeis. Derrotado Serra, a internet se encheu de recados (“twits”) abertamente discriminatórios contra o Nordeste e os nordestinos, quando não pura e simplesmente racistas. A estudante de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas, Mayara Petruso, acabou por se converter no ícone dessas manifestações de exclusivismo de classe e de preconceito atrasado e reacionário, ao clamar pelo genocídio (“faça um favor a São Paulo, afogue um nordestino”) e ser consequentemente processada pela OAB de Pernambuco; mas deveria estar claro que ela é apenas a ponta de um iceberg não muito oculto. A página da internet xenofobianao registra centenas de twits da mesma natureza ou pior.

É óbvio que a candidatura de Serra vai tratar de se desvincular de semelhantes absurdos, mas deveríamos ter claro que se o preconceito em que tais manifestações se enraízam é muito mais antigo do que as pretensões eleitorais de Serra, e portanto não pode ser atribuído a elas, também é verdade que a campanha eleitoral do “social-democrata” Serra ajudou, e muito, a criar um ambiente político em que tais demonstrações de primitivismo e atraso político pareceram naturais, pelo menos aos seus perpetradores. Nada indica que os tucanos tenham aprendido alguma coisa a respeito, e consequentemente pode-se esperar que, nas próximas campanhas eleitorais, continuem a fomentar um ambiente em que tais veleidades de ultra-direita proliferem. Atenção redobrada, portanto, às eleições municipais de São Paulo (e outros municípios semelhantes, como Campinas ou São Carlos) em 2012; é ali que poderemos verificar o peso que a “xenofobia interna” anti-nordestina pode vir a representar nos próximos anos – e, se for o caso, é ali que poderemos derrotá-la em definitivo, esmagando as serpentes no próprio ninho.

 
 

 

fim